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    POEMA DIDÁTICO 

                                 Paulo Mendes Campos

    Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo  
    Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.  
    Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,  
    Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.  
    No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,  
    Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,  
    Morto de meu próprio pensamento, destruí-me,  
    Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me.  
    Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,  
    Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria  
    Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,  
    E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.  
    Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,  
    Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio  
    E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?  

    Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante  
    Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio  
    Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.  
    Cansei-me de ser visão: agora sei que sou real em um mundo real.  
    Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse,  
    E  não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia -  
    E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica -  
    E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.  

    Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?  
    0 mundo, companheiro, decerto não é um desenho  
    De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)  
    Mas um desencontro de frustrações em combate.  
    Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem  

    – cabeça, tronco, membros, aspirações a bem-estar– 
     
    E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.  
    Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética  
    Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa  
    Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.  
    0 mundo nasceu das necessidades. 0 caos, ou o Senhor,  
    Não filtraria no escuro um homem inconseqüente,  
    Que apenas palpitasse ao sopro da imaginação. 0 homem  
    É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo  
    Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.  
    Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo  
    Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -  
    É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,  
    Quando ainda me perturbava a flor e não o fruto,  
    Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,  
    Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,  
    Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,  
    A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.  
    Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento  
    De todos: se multipliquei a minha dor,  
    Também multipliquei a minha esperança. 



    Escrito por André Luís Câmara às 10h25
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    Pequena crônica de uma quarta-feira de cinzas

     
     Capa da revista O Cruzeiro, de 10 de fevereiro de 1951, com Sônia Maria Pires Leal (minha mãe)

     

    Assisti pela TV à apuração do desfile das Escolas de Samba, percebendo todo o movimento de emoção no entorno do Sambódromo, que é perto da minha casa. Fiquei contente de a Mangueira estar no desfile das campeãs, no próximo sábado, ainda que tenha ficado em sexto lugar. Embora a cada ano saiba menos dos enredos, continuo a vibrar com a Verde e Rosa.

    Por volta das 18h30, saí para comprar pão, pensando como seria bom termos por aqui um bloco como o do Bacalhau do Batata, que encerra o Carnaval de Olinda na manhã da Quarta-feira de Cinzas. Pelo caminho, fui encontrando conhecidos, amigos deste bairro onde cada vez mais amo morar. "Está saindo um bloco ali embaixo", dizia um. "Lá no Curvelo tinha um muito bom agora há pouco", disse-me outro.

    Na padaria, confirmei a euforia de quem ainda se alegrava com os restos da folia. Mas cedi aos reclames do corpo já cansado e aceitei o anoitecer sem ficar à procura de um último bloco, de uma última farra. No Largo do Guimarães, amigos me pararam, quase a me convencer a seguir com eles para um último gole de cerveja, mas preferi o caminho de casa. De quebra, ganhei uma carona até a esquina da minha rua.

    E desci a ladeira me sentindo imensamente contente. Este foi um Carnaval dos melhores. Nem saí de Santa Teresa e aqui mesmo curti diversos blocos, amigos, conversas, moças lindas que passavam sob o sol deste verão tão carioca que iluminava os sambas e as marchinhas cantados pelas ruas. Quem sabe, no ano que vem, organizo finalmente um bloco que estampe nas camisas a imagem de minha mãe reproduzida na capa da revista O Cruzeiro, em fevereiro de 1951 (Foto acima).

    Num bar das redondezas, amigos se apresentavam numa roda de samba, mas eu precisava escrever esta crônica. Era hora de saber, também, como estavam meus filhos e pensar que, qualquer Carnaval desses, eles talvez voltem a sair nos blocos comigo, como quando eram bem mais crianças.

    Preferi o silêncio de casa, tendo à minha volta toda a possibilidade de um resto de festejo de Momo.
    Pouco antes de abrir o portão, ouvindo os rojões que comemoravam a vitória do Salgueiro, me dei conta que me aproximava muito desses versos de Manuel Bandeira em seu belo soneto Um sorriso:  "A paisagem ficou espiritualizada./ Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia/ Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada..."



    Escrito por André Luís Câmara às 21h27
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    Samba na Quarta-feira de Cinzas

     

    Uma boa dica para esta Quarta-feira de Cinzas, 25 de fevereiro, é conferir o belo repertório do Grupo Curupira, que se apresenta a partir das 19h no Bar do Marcô, em Santa Teresa (Rua Almirante Alexandrino 412 - Largo do Guimarães).

    No Carnaval, antigo samba de Caetano Veloso, gravado por Maria Bethânia em seu primeiro disco, é um dos destaques do roteiro. Formado por Cristina Bhering (voz e violão), Antônio Carlos (violão de 7 Cordas), André Rios (percussão) e Aretha Nobre (pandeiro), o Grupo Curupira tem se apresentado semanalmente em bares como o Marcô e também o Belmiro, em Botafogo.



    Escrito por André Luís Câmara às 12h23
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    40 anos da ECM Records

     

    "A ECM representa muito para a música mundial (...) A equipe deles era fantástica e as gravações eram em Oslo porque lá o telefone não tocava. E só quem ia para lá eram os músicos", conta o percussionista Naná Vasconcelos ao jornalista Felipe Tadeu, em reportagem feita para a Deutsche Welle, na Alemanha, e publicada na Folha Online, no dia 16 deste mês.

     

     

    ECM Records comemora 40 anos de música e ousadia

    Por Felipe Tadeu

     

    Selo fonográfico de Munique fundado em 1969 por Manfred Eicher permanece como referência do jazz, do experimentalismo e da música clássica.

     

     

     ECM epresenta Egberto Gismonti na Europa

    Egberto Gismonti, um dos grandes nomes da música instrumental no Brasil também foi uma revelação dos históricos festivais promovidos pela televisão nos anos 1960. Mas foi de um estúdio em Oslo, na Noruega, em 1976, que ele armou o salto para a conquista do prestígio internacional. Ao lado do percussionista Naná Vasconcelos, gravaria Dança das Cabeças, que já nascia premiado por sair sob a tutela de uma gravadora muito especial: a alemã ECM Records. 

    Para comemorar seus 40 anos, a ECM (Edition of Contemporary Music) lançou há pouco uma série de 40 títulos, batizada de Touchstones. O pacote traz parte de seu suntuoso acervo em formato digipack com cds que vão de Chick Corea ao cultuado trio Codona, formado por Naná Vasconcelos e os músicos norte-americanos Don Cherry e Collin Walcott. O álbum Duas Vozes (1984), outra parceria de Vasconcelos com Egberto Gismonti, também foi incluído na série comemorativa.

    A consagração de um visionário   

    Em 1969, a ECM  não se tratava só de uma sigla ambiciosa numa Alemanha que já estava restabelecida econômica e tecnologicamente depois das desgraças da Segunda Guerra Mundial. O principal trunfo do selo era mesmo o seu criador, o produtor musical Manfred Eicher, nascido em 1943 em Lindau, no sul da Alemanha. 

    Eichner, de caráter empreendedor e de muito senso estético, foi talhado para revolucionar o sistema de gravação analógico sob o lema The most beatiful sound next to silence (o som mais bonito parecido com o silêncio). Ele mesmo era um habilidoso contrabaixista e, posteriormente, foi diretor de cinema. 

    Além disso, iria alavancar a carreira de artistas do quilate de Keith Jarrett, Pat Metheny e Jan Garbarek, além dos citados Gismonti e Vasconcelos, nas correntes mais progressistas da música mundial. 

    Ex-integrante da Filarmônica de Berlim, Eicher começou a perceber que o seu papel na cena musical iria mais além do que tocar contrabaixo, ao assistir aos 18 anos uma apresentação do Bill Evans Trio em Nova York. Seu entusiasmo pela questão da sonoridade, que já se prenunciava quando Eicher não arredava o pé da sala de gravações em que a orquestra berlinense registrava suas peças, só precisava de um suporte financeiro para virar realidade.

     

    Produzir discos, por que não? 

    Foi aí que Karl Egger, comerciante de Munique proprietário da loja em que Eicher costumava comprar seus long-plays, entrou na história, acenando com um investimento de, na época, 16 mil marcos. Não era muito, mas o suficiente para soltar Free at Last, do pianista norte-americano Mal Waldron, que seria o primeiro passo rumo àquilo que se convencionou chamar o som ECM. 

    Intuitivo, Eicher sempre tentava encontrar as condições técnicas e ambientais – a temperatura e a iluminação adequadas dentro ou fora do estúdio –  para atingir o êxtase musical. "Todos os discos que Codona gravou foram feitos em apenas três dias. Dois deles para gravação e o último para fazer a mixagem. Era assim que a ECM trabalhava", conta Naná Vasconcelos.  

    O resultado era fantástico. A concepção acústica deveria ser encarada como verdadeira escultura sonora, assim como as capas dos discos. Estas combinavam majoritariamente sugestivos motivos fotográficos em preto-e-branco com a música contemplativa que é característica do selo.

     

    O estouro de Jarrett 

    A determinação, o talento e a coragem que Manfred Eicher sempre investiu nos trabalhos de músicos que considera extraordinários – independente do grau de fama deles –, iriam ser coroados definitivamente seis anos depois da criação da ECM, com o álbum Köln Concert, gravado ao vivo por Keith Jarrett em Colônia no dia 24 de janeiro de 1975. 

    O disco ultrapassou a marca dos três milhões de exemplares vendidos, um fenômeno, considerando o fato de ser um disco-solo de um pianista de jazz. Hoje, Jarrett pode se orgulhar de ter 44 álbuns lançados pela ECM, o que atesta o propalado nível de boa convivência que Eicher mantém com os músicos de seu selo, algo raro no meio fonográfico. 

    "Todo produtor tinha que ser músico e já ter ficado, ele mesmo, de frente para o microfone", sentenciou o "pai" da ECM. Os artistas que trabalham com ele sabem que têm ao seu lado um verdadeiro parceiro musical, disposto e, principalmente, capaz de dar opiniões oportunas. "Eu os influencio no sentido de fazer questionamentos, de dar sugestões e apontar novas direções. Mas é claro que eu só posso dar cabo da tarefa se for com a intensidade que se espera de mim, com empatia", declarou ao diário suíço Neue Zürcher Zeitung. 

    A ECM Records, que a partir de 1984 também passou a se dedicar à música clássica, instaurando a chamada New Series, sempre deu ótima acolhida aos brasileiros Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. O primeiro chegou a ter 12 discos de seu selo Carmo licenciados para a ECM (com títulos como Alma, Circense e Nó Caipira, de Gismonti, e Violão, de Nando Carneiro).  

    Já Naná Vasconcelos se faz presente no catálogo com o seu solo Saudades, com a trilogia de Codona, agora relançada em estojo de luxo, os três álbuns divididos com Gismonti (Dança das Cabeças, Sol do Meio-Dia e Duas Vozes), mais os cinco discos com o saxofonista Jan Garbarek e outros cinco com o baixista norueguês Arild Andersen.  

    "A ECM representa muito para a música mundial", afirma Vasconcelos. "A equipe deles era fantástica e as gravações eram em Oslo porque lá o telefone não tocava. E só quem ia para lá eram os músicos", completou o percussionista.

    Leia, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, os verbetes de Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos e Felipe Tadeu

     



    Escrito por André Luís Câmara às 17h48
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    A reforma dos jornais

    O jornalista Carlos Castilho, em seu blog Código Aberto, no Observatório da Imprensa, publicou um importante artigo, no dia 25 de janeiro, no qual analisa as novas perspectivas dos jornais diante do crescente interesse do público pela internet. Reproduzo o texto aqui na íntegra. Confira!

     

    A participação do público na reforma dos jornais

    Postado por Carlos Castilho em 25/1/2009 às 4:55:13 PM

    O jornal espanhol El País é a mais nova experiência de adaptação de uma empresa convencional às novas condições criadas pela internet no mercado da comunicação e da informação (ver aqui). É mais um conglomerado jornalístico que pretende se transformar numa marca ou grife informativa, independente do canal de comunicação usado para chegar até o público consumidor de informações.

     

    A nova estratégia do El País é mais uma  pá de cal na hegemonia do jornal impresso como canal de transmissão de notícias e elemento chave na formação da agenda pública de debates. A meta dos grandes conglomerados da imprensa internacional é agora apostar no prestígio dos títulos de jornais tentando transferir credibilidade para um produto informativo novo, cujo perfil ainda não está claro.

     

    Outros grandes ícones da imprensa mundial como o The New York Times, The Washington Post, The Guardian e Le Monde estão apostando na mesma alternativa mas usando estratégias diferentes. No Brasil também existem projetos de adaptação à nova realidade, como os do grupo Globo e RBS, mas eles são bem menos arrojados porque nossas empresas são muito mais conservadoras e também porque a situação financeira delas ainda não é tão difícil quanto as da Europa e dos Estados Unidos.

     

    Ao abandonar a plataforma papel como a base principal do seu modelo de negócios e optar pela aposta na qualidade da informação como fator capaz de gerar valor agregado ao seu produto, as empresas jornalísticas estão dando um salto no escuro porque elas passam a depender de credibilidade e este é um fator extremamente volátil, em especial no ambiente digital.

     

    Além disso, as empresas testam um novo modelo de negócios baseado na oferta de notícias e informações qualificadas, sem dar a devida atenção ao fato de que o sistema de produção de conteúdos jornalísticos está mudando radicalmente. Estamos entrando rapidamente no contexto da produção coletiva e colaborativa de informações, enquanto a quase totalidade dos jornais ainda está atrelada à cultura da notícia feita e empacotada dentro das redações.

     

    A informação e o conhecimento são cada vez mais o resultado da ação de agentes independentes e da colaboração entre milhares de indivíduos cuja característica mais valorizada não é a sua titulação acadêmica ou experiência profissional, mas a diversidade de experiências.

     

    Quem diz isto não são nerds messiânicos ou delirantes, mas executivos de empresas como Procter & Gamble (produtos de higiene), Dell (computadores), Lilly (indústria farmacêutica) e a agência espacial norte-americana (NASA). A P&G e os laboratórios Lilly são os principais incentivadores do projeto InnoCentive, lançado em 1998, e que se apóia na colaboração de entre cientistas e pessoas comuns na busca de soluções inovadoras  para problemas complexos.

     

    Experiências como a do InnoCentive estão se reproduzindo rapidamente em várias áreas, tanto da atividade industrial como na academia. Todas elas estão apoiadas num elemento principal: a coleta do conhecimento desenvolvido por pessoas que não são consideradas especialistas, como mostram os trabalhos de instituições como o Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC), da Universidade Federal de Santa Catarina.

     

    Se vocês se interessarem, há muito material sobre isso publicado tanto em livros como na Web. Não dá para me alongar demais aqui porque o importante agora é mostrar o que isto tem a ver com o jornalismo e a imprensa. A notícia não é mais um monopólio e um privilégio das redações, da mesma forma que as grandes descobertas cientificas deixaram de ser um monopólio dos centros de pesquisas, como mostra o caso das novas galáxias e novos fenômenos estelares, identificados por amadores.

     

    A notícia e a informação estão nas comunidades sociais e na multidão de indivíduos conectados em redes. É o público que começa a produzir informações, como prova o fenômeno dos blogs e da enciclopédia virtual Wikipédia, cujo princípio da autoria coletiva e anônima foi reconhecido até mesmo pela secular Enciclopédia Britannica, que decidiu abrir ao publico parte da produção dos seus verbetes.

     

    Os jornais já tentaram se transformar verdadeiras federações de blogs, mas a experiência não apontou resultados conclusivos. O problema não está no formato blog, mas no conteúdo, já que os blogs de jornais, geralmente, não passam de colunas assinadas e publicadas na Web. A participação do leitor é quase nula.

     

    O grande problema é como envolver o público na produção da informação e das noticias de um jornal. Quanto a isto existem apenas experiências parciais como a do jornal sul-coreano Ohmy News ou da emissora colaborativa norte-americana Current TV. Sem o envolvimento do público, é impossível o jornal produzir todas as informações que a comunidade necessita, porque haveria necessidade de uma redação enorme, o que inviabilizaria financeiramente o projeto.

     

    A outra alternativa é optar pela segmentação, ou seja, os jornais deixariam de ser supermercados da informação, como atualmente, para funcionarem como butiques ou nichos informativos. Mas ainda assim a participação do público seria essencial porque a colaboração voluntária serviria para contrabalançar o faturamento obviamente menor.


    Este assunto merece ser mais discutido, principalmente por meio da participação dos leitores do Código. Os jornais estão fazendo de tudo para chegar a um novo modelo de produção de informações, mas uma coisa parece certa: sem o envolvimento do público consumidor de notícias, vai ser muito difícil atingir este objetivo.

     



    Escrito por André Luís Câmara às 17h23
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    Samba na madrugada


    Imagem reproduzida da internet

     

    (Poema feito na volta da roda do Bip Bip)

     

    Acompanha meu silêncio,
    como quem enxuga a lágrima.
    Chega já sem sofrimento,
    vem sereno, vem sem mágoa.

    Nasce do ouvido de dentro
    e se espalha pela sala.

    Vai aos poucos me envolvendo,
    muda a vida e a minha casa.

    No vazio me aconchego,
    depois da roda acabada.
    Meu coração vai batendo
    um samba na madrugada.



    Escrito por André Luís Câmara às 02h48
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    Dicas de samba em Botafogo

     

    Aqui vão três dicas de boas rodas de samba em Botafogo, no Bar do Belmiro, bem ali na esquina das ruas Visconde de Caravelas e Conde de Irajá. Paulinho do Cavaco e o grupo Tocando a Vida se apresentam na segunda-feira, das 20h às 22h. No dia seguinte, no mesmo horário, é a vez do grupo Curupira, que na quarta-feira, dia 28, estará no Bar do Marcô, em Santa Teresa. No dia 29, como acontece toda quinta-feira, também das 20h às 22h, no Bar do Belmiro, Manoela Marinho, uma das integrantes da Orquestra Lunar, se apresenta com outras instrumentistas lunares. Confira!

     



    Escrito por André Luís Câmara às 15h28
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    A eterna juventude de Domingos Oliveira


    Domingos,Aderbal e Paulo:amizade

    Domingos Oliveira poderia ter ficado apenas como o realizador de um dos mais importantes títulos do cinema brasileiro. Refiro-me, claro, a Todas as mulheres do mundo. Estrelado por Leila Diniz e Paulo José, em 1966, é, até hoje, reverenciado por muitos cinéfilos.  

    Mas a vida se impôs com seus amores, suas separações, e Domingos seguiu adiante, envolvendo-se, cada vez mais, com o teatro e, vez por outra, escrevendo especiais para a televisão.

     

    Foi o responsável pela adaptação, para os palcos brasileiros, de Ensina-me a viver , o último grande êxito, na década de 1980, da grande atriz Henriette Morineau. Na mesma década, foi premiado como Melhor Autor, por Assunto de família, peça que também dirigiu e foi estrelada por Fernanda Montenegro. Repetiu o sucesso de autor e diretor com No brilho da gota de sangue, que contou com uma notável interpretação de Carlos Vereza.

     

    Ainda mergulhado no teatro, dirigiu e atuou em um dos clássicos de Ibsen, Um inimigo do povo, e por aí foi caminhando. Muitos anos depois retornou ao cinema, investindo em produções de baixo custo. Amores e Separações são dois belos e vigorosos exemplos desse retorno a que se seguiram o simpático Feminices e o ótimo Carreiras, este adaptado do monólogo Corpo a corpo, de Oduvaldo Vianna Filho, a cuja leitura tive o prazer de assistir, feita pelo próprio Domingos, no Espaço Cultural Sérgio Porto, na década de 1990.

     

    Mas, há muito tempo, o diretor anunciara a intenção de escrever, para o palco, uma versão masculina de Confissões de Mullheres de 30, que encenou no início da década de 1990 e tem agora nova montagem em São Paulo. Seria uma espécie de Confissões de Homens de 50. Mas só ao chegar à beirada dos 70 anos é que o artista conseguiu dar vazão a essa idéia, que em vez de peça tornou-se um filme. O resultado é Juventude, que acaba de estrear nos cinemas do Rio de Janeiro. No elenco, estão o próprio Domingos Oliveira e dois de seus companheiros de viagem: o extraordinário ator Paulo José e o respeitado diretor teatral Aderbal Freire Filho. Na sessão de sábado, no menor e mais charmoso cinema da cidade, o Cine Santa Teresa, me vi inteiramente tomado por essa história, que é talvez sempre a mesma história de Domingos, a cada filme contada de modo mais saboroso e emocionante.

     

    Estão lá os louvores à mulher amada, os impasses do enfrentamento das armadilhas da vida, a cumplicidade entre os amigos, a fraternidade, as angústias, a solidão, a crueldade do dia-a-dia, o lirismo, as doenças, a morte, a nudez dos preconceitos, o contraste entre as classes sociais, as frustrações, os conflitos da paternidade e dos relacionamentos com grande diferença de idade, a insistência na poesia.

     

    Consagrado nos festivais de Gramado e de Brasília, Juventude é, nada menos, que a mais comovente e significativa obra do que se pode ainda chamar de um cinema de autor. Na filmografia internacional recente, só é possível comparar a iniciativa de Domingos a de Denys Arcand, realizador de As Invasões Bárbaras (2003) e de A era da inocência (2007).

     

    Por vezes, parece que se trata, sim, de um filme fortemente influenciado pelo diretor canadense ou, quem sabe, pelo italiano Ettore Scolla, de Nós que nos amávamos tanto. E sempre haverá quem se lembre de Woody Allen. Mas Juventude tem a cara de Domingos Oliveira. Até mesmo a peça que encenou no colégio, aos 12 anos, A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, é uma referência importante na trama.

     

    Em dado momento, o personagem de Aderbal Freire Filho, ao demonstrar inveja pela aparente felicidade do jovem casal de caseiros, quase parece dizer versos de Tabacaria, do Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos: "(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira/ Talvez fosse feliz)". E em muitas cenas há, pelo menos, um poema de Carlos Drummond de Andrade que parece ressoar, o poema José, principalmente estes versos: "... o dia não veio/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou/ e agora, José?" Mas é com um samba de Cartola, feito em parceria com Elton Medeiros, O sol nascerá, que Domingos Oliveira faz seu desfecho poético: "A sorrir/ eu pretendo levar a vida..."

     

    Sem medo de correr o risco da pieguice, o filme é um convite a ver o amanhecer, a olhar para a beleza das coisas que continuam diante de nossos olhos e que a iminência da morte, o chamado da velhice, as limitações do corpo nos levam a gostar ainda mais.

     

    Paulo José e Aderbal Freire Filho, em marcantes atuações, costuram com Domingos uma história de muitos símbolos, muitas referëncias, por onde passam o Teatro de Arena, o Cinema Novo, Joaquim Pedro de Andrade, Oduvaldo Vianna Filho, o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo. E tudo lindamente ponteado pelo violoncelo de Antônio Meneses enchendo a mansão de Petrópolis, único cenário, com a maravilhosa música de Bach. É um filme para, depois, quem sabe, bater um papo com os amigos, beber um chope ou sair telefonando para muita gente e perguntando “como é que você está?”

     

    Não sei se Juventude pode ser considerado uma obra-prima. Mas chega bem perto. E, ainda por cima, tem a fotografia de Dib Lufti, uma legenda do cinema brasileiro. Na 36ª edição do Festival de Cinema de Gramado, no ano passado, o filme foi aplaudido de pé. Assim como Todas as mulheres do mundo, para os que amam o cinema e o teatro de Domingos Oliveira, Juventude é definitivamente obrigatório.

     

     

     



    Escrito por André Luís Câmara às 01h40
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    A você, passista da esperança

     
     Di Cavalcanti

     

    A você, que se foi com o vento,
    ou que me encontra pelas esquinas,
    que só conheço pela internet, sem tempo,
    que marcou tanto minha vida,
    a você, que sumiu pelo mundo,
    se arriscou, foi mais fundo,
    a você, que me faz falta
    nas horas do riso ou da lágrima,
    a você, que parecia ser pra sempre,
    e perdi de vista, de repente,
    a você, com quem mantenho afinidade,
    ou que agora só cumprimento de passagem,
    a você, com quem fui estúpido,
    e ainda devo dinheiro, devo afeto, tudo,
    a você, que conheci outro dia,
    ou me acompanhou nas orgias,
    com quem já marquei bobeira,
    mas continuo aqui pra mais uma saideira,
    a você, que me viu casado,
    ou vagando sem rumo nas madrugadas,
    que jamais veio à minha casa,
    mas que trago no peito e na memória,
    que me viu falar aquele verso a esmo,
    que recebeu meu mais sincero abraço,
    a você, que esteve no enterro de minha mãe, de meu pai,
    que sempre pergunta sobre meus filhos,
    que sabe da minha incompatibilidade com animais,
    mas insiste em me dar um cachorro ou um gato,
    a você, que socorri em horas de angústia,
    ou que não me encontrou disponível
    no momento em que de mim mais precisava,
    a você, com quem gosto de cantar um samba
    ou ficar em silêncio, lendo, na sala,
    a você que me lembra da “arte do encontro”,
    com quem falo de um disco de Paulinho da Viola
    ou de um filme de Domingos Oliveira,
    ou de um poema de Manuel Bandeira,
    ou recordo de Dolores Duran,
    a você, que ri das minhas piadas sem graça,
    que me acha bobo, menino eterno,
    nos meus devaneios, nos meus tropeços,
    nos meus deslizes com a mulher amada,
    a você, que me deu de comer, me estendeu a mão,
    que eu não esqueço mais não,
    a você, de quem fiquei distante
    e nunca me viu de cabelos brancos,
    a você, que é pra mim uma festa,
    que sabe do meu ódio à rotina, à hierarquia,
    e da minha paixão pela poesia, pela seresta,
    por aqueles olhos e o sorriso dela,
    a você, com quem talvez nunca mais esteja,
    ou que amanhã reencontre na rua, no bonde, na troca de e-mails,
    a você, que está pela Alemanha, Suécia, Acre, Bolívia,
    com quem pareço continuar em sintonia,
    mesmo entre tiroteios e guerras,
    a você, com quem é bom falar besteira,
    por quem guardo esta ternura, esta simpatia,
    a você, que é da tristeza e da alegria,
    das horas de tédio, do repúdio à hipocrisia,
    a você, que eu admiro e de quem nada espero,
    a não ser esta maravilha de saber
    que estaremos por aí, longe ou perto,
    em diferentes cidades ou, até, pela vizinhança,
    pra escrever nossa história, reinventar nossa dança,
    desejo um Ano Novo com tudo de melhor
    a você, que é passista da esperança.

     

     



    Escrito por André Luís Câmara às 00h38
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    Poema de Natal


    Djanira

    Não há muito o que dizer, mas hoje é dia para ler e ouvir o belo Poema de Natal, de Vinícius de Moraes. Veja um trecho do documentário Vinícius, de Miguel Faria Jr, com Ricardo Blat e Camila Morgado. Clique aqui. Boas Festas!

    Poema de Natal
    (Vinícius de Moraes)

    Para isso fomos feitos:
    Para lembrar e ser lembrados
    Para chorar e fazer chorar
    Para enterrar os nossos mortos -
    Por isso temos braços longos para os adeuses
    Mãos para colher o que foi dado
    Dedos para cavar a terra.
    Assim será nossa vida:
    Uma tarde sempre a esquecer
    Uma estrela a se apagar na treva
    Um caminho entre dois túmulos -
    Por isso precisamos velar
    Falar baixo, pisar leve, ver
    A noite dormir em silêncio.
    Não há muito o que dizer:
    Uma canção sobre um berço
    Um verso, talvez de amor
    Uma prece por quem se vai -
    Mas que essa hora não esqueça
    E por ela os nossos corações
    Se deixem, graves e simples.
    Pois para isso fomos feitos:
    Para a esperança no milagre
    Para a participação da poesia
    Para ver a face da morte -
    De repente nunca mais esperaremos...
    Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
    Nascemos, imensamente.



    Escrito por André Luís Câmara às 11h26
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    Música de Francisco Mário: da Araucária à Internet

    Da Espanha, chega a mensagem do compositor e instrumentista Marcos Souza: a discografia de seu pai encontra-se disponível na internet. Logo me vem a imagem de Francisco Mário, o pai de Marcos, a tocar um de seu violões, no apartamento da Rua Araucária, no Jardim Botânico, onde eu, adolescente, na virada da década de 1970 para 1980, ia apanhar seus discos independentes para vender. Foi assim com o primeiro, "Terra", de 1979, "A Revolta dos Palhaços", de 1981, "Conversa de Cordas Palhetas e Metais", de 1983, e "Pijama de Seda", de 1985. Depois vieram os outros, como "Retratos"e os póstumos "A Dança do Mar" e "Suíte Brasil". Não sei se erro nas datas e, talvez, tenha participado, mesmo, da distribuição dos primeiros.  Aliás, tenho a minha assinatura, já muito feia, no encarte do seu segundo disco, do qual fui um entre as centenas de co-produtores, que compraram o disco antes que ele saísse.

    Mas me vem essa lembrança boa de Francisco Mário (jamais o chamei de Chico), época em que Marcos ainda era bem garoto, gostava de jogar futebol de botão e suas irmãs, Ana e Karina, iam nascendo, à medida que o pai cada vez mais se dedicava à música e aos discos independentes.

    Um trabalho belo, uma obra perene. Chico Buarque bem que tentou, mas não conseguiu fazer a letra para uma das faixas de "Revolta dos Palhaços", a bela "O Mágico", que já diz tudo na sua versão instrumental. Ruy Guerra também não conseguiu tornar-se seu parceiro, mas me lembro bem dele fumando charuto na sala do apartamento da Araucária, enquanto eu conversava com a Nívea, a companheira de sempre e produtora do artista/marido. Já Aldir Blanc e Paulo Emílio fizeram com ele belas parcerias.

    Até hoje não tinha escutado o disco que o compositor não chegou a terminar e que seu filho, com muito talento, completou. Falo da obra-prima "Tempo". Neste disco, o compositor mineiro volta a cantar como em "Terra", seu disco de estréia. Naquele, uma das faixas tinha versos que diziam: "cheiro de conversa/ beira de fogão". Pois é a imagem que me volta ao escutar "Tempo", que abre com uma homenagem a Carlitos, o vagabundo amado por Carlos Drummond de Andrade. E, por isso mesmo, o disco fala de Drummond em, pelo menos, mais duas faixas: no poema "Cantiguinha", que Francisco Mário musicou e cantou num de seus shows na Sala Sidney Miller, na Funarte, ainda na Rua Araújo Porto Alegre, e também em "Boitempo", título de um famoso livro do poeta nascido em Itabira. 

    No show em sua homenagem, realizado pouco antes de sua morte, no fim da década de 1980, gravei alguns momentos que foram aproveitados no documentário "3 irmãos de sangue". Contei com a colaboração de Marília Lazzarotto e de Marcelo Carneiro. Na verdade, eles foram os principais responsáveis pelas imagens históricas, já que eu estava mais tímido em gravar, haja vista que o próprio Francisco Mário tinha dúvidas se os músico aceitariam serem gravados em vídeo naquela noite memorável.

    Para acessar a obra de Francisco Mário, visite o endereço  http://www.imusica.com.br/artista.aspx?id=7305



    Escrito por André Luís Câmara às 00h16
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    Biografia de Jayme Ovalle será lançada no Rio no dia 30

    Quem se interessa por personagens marcantes da cultura brasileira, como Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt e Fernando Sabino, entre tantos outros, já deve ter ouvido falar em Jayme Ovalle, uma referência importante na vida de todos esses artistas. Compositor e poeta, foi parceiro de Bandeira em Azulão, toada que se incorporou definitivamente ao cancioneiro brasileiro e motivo maior pelo qual seu nome foi incluído no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, cuja edição em papel recebeu o nome de Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira.

    Ovalle era quase uma lenda da qual escritores, pintores, músicos falavam com entusiasmo, mas não se sabia realmente como tinha vivido ou quem, de fato, teria sido. A recente publicação de O Santo Sujo, biografia primorosa escrita pelo jornalista e escritor Humberto Werneck, lançada pela Cosacnaify, põe a merecida luz nessa escurez, como poderia dizer Mário de Andrade. O livro terá seu lançamento carioca no dia 30 de setembro, na Livaria da Travessa de Ipanema.

    Para o poeta de Lira Paulistana, a sensibilidade de Ovalle era excessiva e rápida demais, o que o atrapalhava. No entanto, o autor de Macunaíma também afirmou, em carta a Manuel Bandeira, que "quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário... Se eu pudesse escolher um tipo pra eu ser eu queria ser o Ovalle".

    Segundo a ensaísta e pesquisadora Elvia Bezerra, foi o amigo que melhor conheceu o cotidiano de Manuel Bandeira na Rua do Curvelo, em Santa Teresa. Era ele que acordava diariamente o poeta com o primeiro telefonema do dia, contando seus infindáveis casos amorosos

    A Belém do Pará modernizada por Antônio José de Lemos, o ambiente da Galeria Cruzeiro, no Rio de Janeiro, o Bar Nacional, o Restaurante Reys, a Lapa e seus noturnos, a boemia que rendeu tantos poemas pelas madrugadas, o choro de Pixinguinha, o samba de Sinhô, o Corta-jaca de Chiquinha Gonzaga no Palácio do Catete, o mar de Copacabana, a Londres e a Nova York das décadas de 1930 e 1940, tudo isso e muito mais está no saboroso e envolvente livro. Autor de um texto respeitado sobre Chico Buarque (Gol de letras) e de uma importante história sobre escritores e intelectuais mineiros (O desatino da rapaziada), Humberto Werneck foi além em seu mais novo trabalho e, não só traça o perfil de uma das figuras mais emblemáticas da boemia e da nossa vida cultural, como oferece um panorama detalhado de um dos períodos mais ricos e efervescentes das artes brasileiras.

    A obra de Ovalle é das coisas mais misteriosas que envolvem o processo de criação. Mais que poeta ou compositor, parece ter ele sido a poesia em estado puro. E disso falavam seus amigos e parceiros. Sua trajetória é extrememente bem reconstituída por seu biógrafo, que não deixa dúvidas quanto ao lugar de destaque que Jayme Ovalle ocupa, de modo bastante singular, na cultura brasileira. Com O Santo Sujo, Humberto Werneck ganharia, certamente, o abraço e o agradecimento emocionados de Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Di Cavalcanti e tantos outros. É pena que eles já não estejam aqui.

    O Santo Sujo terá finalmente seu aguardado lançamento carioca, com a presença do autor. No dia 30, espero poder comparecer à Livraria da Travessa de Ipanema. Humberto Werneck escreveu um desses livros que nascem eternos. 



    Escrito por André Luís Câmara às 22h58
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    Atualidade de Paulinho da Viola


    Elifas Andreato

    No texto Atualidade de Chopin, incluído em seu livro O Baile das Quatro Artes, Mário de Andrade diz que o genial compositor polonês "é dessa espécie de gênios que só crescem com o correr dos anos e se depuram em sua significação artística, mas a certos momentos da história são como que redescobertos em sua significação humana e utilitária". Pois creio que o mesmo pode ser dito do extraordinário Paulinho da Viola.

    Faz tempo, um grande amigo, a quem muito tempo já não vejo, gravou para mim algumas faixas antológicas do chamado "príncipe do samba". Pois, hoje, ao ouvir Não quero você assim, telefonei a esse amigo, com quem há tanto tempo não falava, e só pude dizer a ele um "obrigado", como quem gostaria de, na hora, compor nada menos que o próprio Sinal Fechado, do mesmo Paulinho ("Olá, como vai/ eu vou indo e você tudo bem...)

    Eu me lembro de certa vez, no Bar Lagoa, quando meus pais ainda eram vivos, estar com eles bebendo um inocente refrigerante, garoto que ainda era, e percebi, na mesa ao lado, Paulinho com sua mulher e uns amigos. Desembestei a cantarolar coisas como Foi um rio que passou em minha vida. Elegante como sempre, compreensivo com minha chatice de fã inoportuno, ele sorriu como a agradecer. Ao sair do bar, me atrevi a lhe acenar e ele, evidentemente, correspondeu. Jamais irei me esquecer disso. Muito menos da felicidade de minha mãe, que gostou imensamente da atitude dele. E até meu pai, que jamais foi afeito ao samba e à boemia, se curvou à nobreza de Paulinho.

    Cheguei também a vê-lo no show Zumbido, no apagar das luzes do Teatro Opinião, em 1979, no Pojeto Pixinguinha, ao lado de Monarco, no Teatro Dulcina, e ainda no Circo Voador, na década de 1980.

    Pelos amigos que vivem em outras cidades, no país e no exterior, e amam esse compositor de Botafogo e da Portela, pelos amores que perdi e tiveram momentos marcados por suas composições, pela vontade que tenho de mostrar esse artista a meus filhos, por essas e outras, convido você, leitor, a assistir a um registro de Paulinho da Viola, com Marisa Monte e o inesquecível Rafael Rabelo, cantando exatamente a bela Não quero você assim. Clique
    aqui



    Escrito por André Luís Câmara às 20h09
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    3 mil pessoas cantam com João Gilberto no Municipal do Rio

    Por volta das 23h40 deste domingo, 24 de agosto, cerca de três mil pessoas lotavam o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e aplaudiam, de pé, o cantor João Gilberto, que se retirava do palco após quase duas horas de um show inesquecível. Entre muitas surpresas, o concerto histórico de voz e violão reuniu um tributo a Dorival Caymmi, recentemente falecido, uma homenagem ao conjunto vocal Os Cariocas, e contou ainda com um inusitado pedido do artista para que cantassem com ele, "em sussurro", o clássico da bossa nova Chega de Saudade

    Na primeira noite do mesmo show em São Paulo, o cantor entrara em cena nada menos de uma hora e meia depois do horário marcado. No Rio, um pouco mais generoso com a platéia, deixou que esta o esperasse por aproximadamente 50 minutos. Mas valeu a pena. Às 21h05, o assistente de palco colocava uma toalha branca e uma garrafa de água mineral ao lado da cadeira em que o artista se sentaria. Prova de que João deveria se atrasar pouco para o espetáculo programado para as 21h. Após 15 minutos, soava o primeiro sinal. Meia hora depois, o público demonstra uma ligeira impaciência e começa a bater palmas, como a chamar pelo cantor. Às 21h48 vem o segundo sinal e a luz vai diminuindo, para a alegria geral. Dois minutos depois, soa o terceiro sinal e, em seguida, João Gilberto entra, com seu inseparável violão. A noite memorável estava somente começando.

    Com algumas modificações no roteiro apresentado em São Paulo, três canções de Dorival Caymmi abriram o espetáculo carioca: Você já foi à Bahia, Doralice e Rosa morena. Talvez sugestionado pela perda recente do extraordinário compositor baiano, o público percebe uma comoção maior na interpretação da primeira canção. E a impressão é reforçada quando João Gilberto, ao final, pronuncia o nome de Caymmi e torna a repetir Você já foi à Bahia, como a querer encontrar um tom mais certo, talvez menos comovido (assista ao vídeo aqui). Mas igualmente são emocionantes as interpretações para a brejeira Doralice, gravada em seu segundo Lp, em 1960, e Rosa morena, esta de seu antológico primeiro Lp, de 1959.

    Logo depois é a vez de 13 de ouro, primeiro dos três sambas assinados por Marino Pinto que fizeram parte do repertório do show. Letrista injustamente pouco reconhecido, tem em João Gilberto um de seus mais constantes intérpretes. Os outros dois sambas, Preconceito, parceria com Wilson Batista, e Aos pés da cruz, parceria com Zé da Zilda, ainda seriam deliciados durante a noite. 

    Meditação, de Tom Jobim e Newton Mendonça, dá a deixa para uma série de clássicos da bossa nova que seriam revisitados. Entre os momentos de maior destaque, se é que é possível fazer tal distinção, ficam as interpretações para Samba do avião, de Tom, e Chove lá fora, de Tito Madi. Este e Sérgio Ricardo, presente na platéia, foram mencionados pelo cantor como seus amigos. De Sérgio, João Gilberto lembrou a bela O nosso olhar. Além disso, houve uma homenagem ao quinteto (depois quarteto) vocal Os Cariocas, tendo seus primeiros integrantes, como Ismael Neto e Severino Filho, sido citados por João.

    Por volta das 23h05, após cantar Isso aqui o que é, de Ary Barroso, João Gilberto retornaria ao palco sob uma chuva de aplausos para o bis, que mais parecia uma segunda parte do show e teve diversas canções, como Retrato em branco e preto, de Tom Jobim e Chico Buarque, Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius e, clássico dos clássicos, Chega de saudade, da mesma dupla. Mas aqui, surpreendendo a todos, João Gilberto não só aceitou que o público cantasse junto, como incentivou-o a repetir a canção, "em sussurro", enquanto ele acompanhava com seu inconfundível violão. O bis contou ainda com mais uma referência a Caymmi, o belo samba-canção Você não sabe amar.

    Por fim, O Pato, sucesso da década de 1960, encerrou o evento, que deve ficar para sempre marcado como um dos maiores acontecimentos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em vão o público tentou um novo retorno do artista ao palco. Mas ninguém saiu triste. Afinal, quase duas horas haviam se passado de puro encantamento para três mil pessoas que, em silêncio, comprovaram como violão e voz podem redefinir os caminhos da música, tornando-a, ao mesmo tempo, refinada e simples, seja num cantinho, seja numa sala de concerto. 

    No dia 5 de setembro, será a vez da platéia baiana recepcionar o cantor, que retorna a seu estado de origem para uma apresentação no Teatro Castro Alves, em Salvador. Por lá, o tributo a Caymmi deverá ser igualmente (ou ainda mais) comovente.

    Confira o roteiro do show:
    1. Você já foi à Bahia?
    2. Doralice
    3. Rosa Morena
    4. 13 de Ouro
    5. Meditação
    6. Preconceito
    7. Samba do Avião
    8. Sinfonia do Rio de Janeiro
    9. Lígia
    10. Caminhos Cruzados
    11. Não vou pra casa
    12. Disse alguém (All of me)
    13. Corcovado
    14. Chove lá fora
    15. O nosso olhar
    16. Wave
    17. De conversa em conversa
    18. Desafinado
    19. Estate
    20. Isto aqui o que é

    Bis:
    21. Aos pés da cruz
    22. Da cor do pecado
    23. Retrato em branco e preto
    24. Você não sabe amar
    25. Tim tim por tim tim
    26. Chega de saudade
    27. Improviso
    28. Garota de Ipanema
    29. O Pato

     



    Escrito por André Luís Câmara às 02h05
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    Caymmi para ninar Camila e Pedro

    Neste vídeo, a violonista Rosinha de Valença, já falecida, apresenta, creio que em programa de TV gravado na Alemanha, em 1966,  sua interpretação para Acalanto, canção composta por Dorival Caymmi para ninar sua filha Nana, e depois seus dois outros filhos, Dori e Danilo, e que eu cantarolava para adormecer meus filhos, Camila e Pedro. Foram eles que me telefonaram para dar a notícia da morte do compositor, na manhã de ontem. Espero que eles sempre se lembrem deste verso de Caymmi, em Saudade da Bahia: "pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz".

    Clique
    aqui.



    Escrito por André Luís Câmara às 22h26
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    Um pouco mais de Caymmi

    Pelas esquinas de Santa Teresa, encontro o jornalista Romildo Guerrante, que me estimula a contiuar a falar de Caymmi neste blog. Mas como faltam as palavras, o melhor é conferir algumas imagens que homenageiam o genial compositor, sepultado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, pouco antes das 16h deste domingo, 17 de agosto.

    Para ver trecho do documentário "Um certo Dorival Daymmi", dirigido por Aloísio Didier, clique aqui.

    Para ver Gal Costa e Caymmi cantando "Só louco", clique
    aqui.

    Para ver Mônica Salmaso cantando "Suíte dos Pescadores", clique aqui.

     



    Escrito por André Luís Câmara às 17h59
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    Ai, que saudade eu tenho de Caymmi!


    Elifas Andreato

    Aos 94 anos, Dorival Caymmi se foi para a eternidade, nas primeiras horas da manhã deste sábado. Acho que todos deviam sair cantando em direção ao mar, ao rio ou à cachoeira para louvar este que tanto cantou a beleza das águas, da terra da vida da gente comum e está para sempre guardado no coração dos que amam as canções, a poesia, a beleza das coisas. Alô Felipe e Gisela, na Alemanha, Danilo e Mariana, no Canadá, Vera em São Paulo, Alfredo e todo mundo do Bip-Bip, Victor, Maurício e o pessoal do Gomez, amigos de todos os lugares, distantes ou não. Abraço todos vocês. E penso em meus filhos e me alegro em saber que o Brasil ainda tem pérolas lindas para mostrar, como a obra de Dorival Caymmim. Dia de dor e de perda para a família, os parentes, os amigos mais chegados. Nós, simples mortais e admiradores da canção brasileira só podemos nos encantar com este instante emocionado. Caymmi, nos braços de Iemanjá, já faz parte de um período iluminado da nossa vida. A mãe d'água levou seu menino e a jangada voltou só, mas o mar quando quebra na praia é bonito. Ai, ai que saudade eu tenho de Caymmi. O samba da minha terra deixa a gente mole e a Deus do Céu vamos agradecer... 

    Para dar uma espiada numa conversa de Caymmi com Caetano, em Roma, em 1983, clique aqui.



    Escrito por André Luís Câmara às 14h12
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    Mônica Salmaso em concerto nos EUA

    Assista ao vídeo da apresentação de Mônica Salmaso no The Millenium Stage, em Washington D.C, em 2002, acompanhada pelo pianista Benjamim Taubkin. Clique aqui.



    Escrito por André Luís Câmara às 02h02
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    Drummond: Soneto da perdida esperança

     

      Soneto da perdida esperança

    Perdi o bonde e a esperança.
    Volto pálido para casa.
    A rua é inútil e nenhum auto
    passaria sobre meu corpo.

    Vou subir a ladeira lenta
    em que os caminhos se fundem.
    Todos eles conduzem ao
    princípio do drama e da flora.

    Não sei se estou sofrendo
    ou se é alguém que se diverte
    por que não? na noite escassa

    com um insolúvel flautim.
    Entretanto há muito tempo
    nós gritamos: sim! ao eterno.

    Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

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    Escrito por André Luís Câmara às 11h01
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    Edu Lobo e Mônica Salmaso juntos na televisão

     

    Para quem perdeu o Som Brasil dedicado a Edu Lobo, no último dia 25, na Rede Globo, eis um momento de reconciliação da TV com o melhor da nossa música. Clique aqui



    Escrito por André Luís Câmara às 00h01
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